Sobre a noção de corpo na psicanálise de Lacan
- Patrícia Mezzomo
- 20 de mar.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Texto escrito para a Sessão Teórica da Escola de Psicanálise Estrutural - EPE
A psicanálise de Lacan revoluciona a compreensão do corpo, desafiando a visão tradicional do nosso ocidente. Em seu texto, Eidelstein revela o fundamento do engano que levou comentadores a interpretarem o corpo como real.
O autor nos aponta o engano daqueles que leram Lacan, mas aponta também o outro engano. O engano que causa o engano. O engano que inverteu o sentido de sua obra e que revela algo ainda mais fundamental, a saber, as bases do pensamento ocidental moderno.
Estamos capturados pela imagem das coisas e atribuímos ao que vemos, substância, peso e valor. Dizemos que aquilo que vemos é aquilo que é.
Um lacaniano que se aproprie da expressão “cortou no real do corpo”, nada mais revela senão seu paradigma ocidental de raciocinar o mundo das coisas tal qual Aristóteles que vê o mundo como composto por coisas com substância e forma. Sua ousia (οὐσία) define entre algumas coisas, aquilo que faz algo ser o que é, a realidade fundamental.
Esta noção influenciou profundamente a filosofia ocidental, especialmente a metafísica e a ontologia, e levou a própria psicanálise a tratar o mundo e consequentemente, o corpo, como uma entidade fixa e objetiva, confundindo o registro do real com carne, matéria e substância.
Contudo, Lacan tentou dar outro corpo à intuição do analista. Tentou que ela se guiasse pelo nó borromeano, que isso fosse o que desse a base material ao sujeito da psicanálise e sua prática. Uma base material que nos apresenta um sujeito que difere do eu e portanto difere do corpo. Um corpo que é construído pela linguagem, pelo discurso, pela topologia e não pela biologia.
Para Lacan, o corpo é aquilo que habita e se submete ao discurso, que faz laço social. Primeiro discurso como laço, depois o corpo. O que “faz órgão” para o sujeito, é a linguagem. Não falamos de um corpo animal, mas sim de um corpo de linguagem.
Mas como apresentar a uma cultura tão aristotélica, outra base material, que não pode ser vista e nem tampouco tocada? Onde vive esse tal do sujeito que não é o corpo e que só pode ser revelado em uma análise pessoal?
Diante disso, surge uma pergunta: o que fez nossos psicanalistas aristotélicos inverterem aquilo que liam? É intrigante o fato de que esses leitores não tenham percebido o sentido daquilo que liam e de alguma maneira lerem justamente o oposto. Seria possível ler a proposta de Lacan, sem ter a própria proposta experienciada em uma análise pessoal? O fracasso foi teórico ou analítico? Falamos de um fracasso de Lacan ou de um fracasso lacaniano?
Pensar sobre isso é pensar sobre a importância de revisitar as fontes originais, questionar as influências teóricas que moldam nossa compreensão da psicanálise, principalmente suas consequências e questionar a própria práxis que funda nosso ofício.
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