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O pai como álibi - S(Ⱥ)

Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
Patrícia Mezzomo
4 de fev.
2 min de leitura

Comparar Freud e Lacan fica agora mais fácil se tivermos à mão o segundo capítulo das Estruturas Clínicas a partir de Lacan. O texto nos apresenta a decisão ética tomada por esses dois autores diante da falta.

Aparentemente Freud, com seu Totem, tomou o caminho do imaginário, tentando dar conta do impossível: a falta estrutural. Sua ficção "salvou" o pai, mas condenou a psicanálise ao Mito, tentando explicar a falta através de um romance familiar de culpa e castigo. Diante do rochedo da castração, Freud parou.

No Lacan de Eidelsztein, o imaginário cede espaço à formalização. A clínica pode, então, avançar para mais além do pai.

Inaugura-se o matema S(Ⱥ) para tornar possível a inscrição lógica dessa falha. Isso pode parecer pouca coisa ao leitor menos atento à letra lacaniana, mas nessas duas letrinhas vemos definida a ética psicanalítica por excelência. 

S(Ⱥ) é uma manobra genial de Lacan para dar conta da falha. Ao invés de tentar esconder a falta com um "Pai Mestre" (como faz a religião ou a neurose), ele cria um símbolo para o próprio buraco. Um significante que diz, justamente, que falta um significante.

O neurótico usa o Pai como álibi para a falta. "Falta algo em mim porque meu pai falhou, ou porque ele me proibiu". Isso cria a ilusão reconfortante de um Outro do Outro: a crença de que existe alguém que poderia completar o sistema, se quisesse.

Com S(Ⱥ), essa esperança cai, mas o sistema não trava. Pelo contrário: assim como a √-1, o matema da falta no Outro é um operador que carece de sentido e não tampona a falta. Ele permite que a equação continue girando sem se chocar contra o rochedo freudiano.

O S(Ⱥ) impede que o sentido se feche em uma "esfera" perfeita. E é graças a esse não-fechamento que a operação clínica acontece. Ao inscrever a falta, a falta aparece. Ao marcar a falta, extrai-se o objeto da falta.

Se o pai faz função de tamponamento e confirmação do Outro do Outro, a clínica do objeto a se posiciona como a clínica do desejo e não do sintoma. A extração do objeto a é o que sobra quando o álibi do pai cai.



 
 
 

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