O jogo do morto
É como morto que o sujeito entra na vida.
Contrapondo toda a intuição e a biologia, Lacan subverte o status quo e utiliza o jogo de bridge para aludir à criação do sujeito ex-nihilo. Trata-se de um sujeito que nasce e morre pela – e na – linguagem.
No jogo e na estrutura, o "morto" está foracluído, mas seus significantes jogam as cartas por ele para lhe conferir significação. Ele entra como morto, mas é obrigado a jogar como vivo! O significante e a estrutura introduzem não apenas a morte, mas também a vida.
É essa a formalização que o Esquema R de Lacan nos apresenta. A estrutura quaternária dá à luz o sujeito da linguagem ao mesmo tempo em que transcende a tríade edípica de Freud.
São três vértices que formam a base estruturante, o triângulo simbólico do esquema R, que inscreve a Mãe (M), o Ideal Simbólico (I) e o Pai (P). Pai esse que surge posicionado em A, o tesouro e bateria dos significantes.
É a partir da posição de P em A que se opera o corte significante do Nome-do-Pai, o qual, sincronicamente com a função do significante fálico, faz surgir o sujeito. Sujeito esse que ingressa como o quarto elemento na combinatória, mas o faz em posição de foraclusão. Como não existe um significante que lhe garanta identidade plena, são os Outros (os significantes) que dão as cartas.
Nome-do-Pai de um lado, Falo do outro. O lugar da Lei de um lado, a miragem da vida do outro. É essa dupla tensão que sustenta esses dois vértices inseparáveis do Esquema R. Com isso, Lacan dá fim à novela edípica para inaugurar um sistema lógico que equaciona o sofrimento do neurótico: um sujeito nascido dessa oposição, que encontra na linguagem o sentido da sua existência ao identificar-se com o significante fálico. Este, apesar de ser puro mistério, o catapulta para a vida, movendo seu desejo e velando a falta.
Essa é a estrutura normalizada que Eidelsztein nos apresenta no quarto capítulo de As Estruturas Clínicas a partir de Lacan, demonstrando, simultaneamente, a impossibilidade dessa mesma formalização nas psicoses. Ao carecer do nó estrutural básico que é o Nome-do-Pai, a psicose tem elidida também a sua significação fálica.
Sem Nome-do-Pai e sem Falo, as questões sobre a vida e a morte tornam-se um cataclismo para o psicótico, exatamente porque ele não recebeu os instrumentos lógicos para empacotá-las em símbolos. Sem a rede simbólica para amortecer, a morte e o vazio o invadem concretamente. Schreber expressa isso com clareza quando testemunha ter tomado conhecimento de sua própria morte, e todo psicótico a experimenta de alguma forma.
Na neurose, ao contrário, o sujeito fantasia sua resposta ao mistério fálico, dando sentido à sua existência através da construção de um roteiro particular. A equação geral é esta: o Nome-do-Pai (P) corta o desejo materno (M), o significante fálico (φ) recobre o corte com seu mistério, e o Sujeito (S) monta sua resposta ideal (I) através do fantasma. Esse é o enodamento bem-sucedido que permite ao sujeito receber do Outro a pergunta incontornável sobre sua existência e seu sexo, utilizando o axioma fantasmático como tábua de salvação contra o dilaceramento da angústia. Sem esse estofo, a posição do psicótico é absolutamente singular, restando-lhe forjar suplências que não suportam o embate direto com a exigência da lei.
A formalização teórica que Lacan nos propõe é a tecnologia que permite ao analista ouvir e orientar o tratamento a partir da lógica e não da novela edípica. Essa diferença estrutural radical é o que dita a direção do nosso tratamento. Ao nos deparamos com as queixas e insatisfações do dia a dia do analisando, não nos fiamos na realidade factual, mas sim no desdobramento do fantasma neurótico. O neurótico sofre porque a sua ficção vacila. E é exatamente por isso que a posição do analista também precisa espelhar a estrutura do jogo de bridge.
Para que o paciente possa ler a sua própria fantasia e se reposicionar nesse tabuleiro quaternário, o psicanalista deve operar também 'fazendo o morto'. Ele coloca suas cartas na mesa (sua presença, sua escuta, seu tempo), mas fica em silêncio para que o analisante jogue com elas. O analista faz a sustentação ativa e rigorosa do vazio do Grande Outro (A). O lugar do morto frustra a demanda amorosa e corta a ilusão de completude, retornando essa mesma demanda ao próprio analisando na forma invertida. Desta forma, resta apenas ao sujeito assumir as cartas do jogo que ele mesmo tem jogado, passando da queixa à implicação.

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