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Da Biologia à Cultura: Claude Lévi-Strauss

  • Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
    Patrícia Mezzomo
  • há 18 horas
  • 2 min de leitura

 A obra fundadora do estruturalismo faz da linguística o eco do ato galileano com a matemática. Ao aliar antropologia aos modelos formais da matemática e da fonologia, Claude Lévi-Strauss opera um descentramento comparável ao de Copérnico e Galileu: se no século XVII a Terra perde seu lugar no centro da criação cósmica, o pós guerra nos presenteia com o fruto do exílio de um herói. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949) destronam a consciência, o ego e a soberania do homem ocidental como centro explicativo da vida social.  


Nasce aí a figura tutelar do estruturalismo, revolucionando as ciências humanas ao tomar a proibição do incesto como a chave do problema antropológico. O ponto de partida para Lévi-Strauss é localizar no incesto o elemento universal invariante, situado no limiar exato entre dois mundos: pertence à natureza por ser uma interdição universal, espontânea a todas as sociedades, mas pertence simultaneamente à cultura por se manifestar por meio de regras, normas e restrições particulares.  


Ao recusar as teses biológicas tradicionais, que explicavam a interdição pelo medo da degeneração genética, Lévi-Strauss redefine o tabu como uma regra positiva de criação social. Proibir o acesso no interior da própria família força o indivíduo a buscar alianças fora do seu grupo consanguíneo. O foco desloca-se, assim, da mera reprodução biológica para a fundação de redes sociais e políticas de troca. A interdição do incesto deixa de ser um limite moral e revela-se como a condição inaugural da comunicação e laço social humano.  


Mas é do fecundo encontro com Roman Jakobson, durante seu exílio em Nova York, que esse passo ganha sua dimensão teórica. Ao assimilar a fonologia estrutural, o antropólogo descobre que o laço social funciona de forma homóloga à linguagem. A sociedade passa a ser compreendida como uma grande rede de signos estruturada em três níveis fundamentais de circulação: a troca de palavras, a troca de bens e a troca de mulheres.  


A partir dessa virada, Lévi-Strauss importa para a antropologia o corte saussuriano, suspendendo a busca pelas origens históricas (a diacronia) para analisar a cultura como um sistema simultâneo de relações (a sincronia). Os termos de parentesco não possuem significado em si mesmos, adquirem valor exclusivamente pela posição e oposição que ocupam dentro de uma matriz simbólica inconsciente, da mesma forma que os falantes de uma língua utilizam as regras da fala sem precisarem ter consciência da estrutura fonológica que rege sua articulação.  


Ao demonstrar que o laço humano não decorre do instinto natural, mas de uma codificação simbólica arbitrária, Lévi-Strauss liberta a antropologia do empirismo ingênuo e do determinismo biológico. O homem deixa de ser o autor deliberado de sua história para se tornar o efeito de uma ordem que o precede. Inaugura-se, assim, o império hegemônico da estrutura, que reinaria absoluto nas décadas seguintes ao provar que a cultura é, antes de tudo, uma linguagem inconsciente.  


 
 
 

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