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A separação definitiva entre o saber e a verdade

  • Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
    Patrícia Mezzomo
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

A separação entre saber e verdade operada pelo ato cartesiano é, talvez, a fratura exposta da qual o Ocidente jamais tenha se recuperado. O luto não elaborado desse corte possivelmente seja a própria causa dos avanços científicos desde as meditações do século XVII.

René Descartes divide o mundo ao meio.

Se antes o homem vivia pacificado em um continuum representacional no qual matéria e espírito permaneciam unificados, depois do corte a natureza perde sua alma. A representação é substituída pela figuração algébrica das equações, o continuum é destruído e o ego surge como o ponto fixo na perspectiva do quadro do universo, substituindo Deus.

Um Deus que, até então, portava saber e verdade em comunhão, respondendo aos anseios acerca do mistério sempre a serviço de suas vontades. Ele sabia, e o que ele sabia era a verdade. Não havia dúvida; havia o homem sem divisão.

Mas, apesar da potência do corte cartesiano e do avanço humano decorrente deste ato, testemunhamos nos séculos seguintes a suspeita de que o homem jamais tenha se restabelecido de tal “divórcio”.

Não à toa, observamos os ideais epistemológicos da herança cartesiana, de uma forma ou de outra, buscarem constantemente certas totalidades, no afã de suturar a rachadura aberta pela racionalidade moderna. A dor dessa divisão acossa o homem e faz avançar a ciência.

Descartes entra para a história como o fundador de um novo mundo: um mundo separado da verdade, mas detentor do saber que faz girar a roda científica incessantemente. Esse movimento revela aquilo que o mais elementar dos neuróticos nos ensina diariamente na clínica: é a falta que move o desejo.

É a essa ambição que Leibniz dedica a vida. A algebrização cartesiana, que criou a Mathesis, foi arbitrária e forçou a matemática sobre a natureza. Leibniz recusa tal violência epistemológica, propondo um novo caminho rumo ao remendo da falta. Ele deseja a característica universal, um supercódigo perfeito que possa dar conta da fratura exposta pela Mathesis e abarcar o que ficou de fora no sistema cartesiano: a dimensão experimental.

Seu anseio é a analogia genuína na qual a composição interna do caractere lembre a composição do próprio objeto, permitindo que a validade da ciência seja garantida pela correspondência estrutural com o mundo real.

E é aqui que a história nos prova, mais uma vez, que a clínica do sujeito dividido é o próprio recorte da ação humana, seja ela coletiva ou individual. Leibniz, assim como o neurótico, diante da falha, busca sutura. A sutura falha, mas o movimento rumo ao desejo segue sendo o motor do progresso — como bem comprova a histeria ao longo das décadas.

Leibniz falhou e avançou. Ao dialetizar cifra e objeto, a leitura da natureza progrediu e resultou em poderosas ferramentas matemáticas, como o cálculo infinitesimal, garantindo o maravilhamento e o avanço da física pelos séculos seguintes.

Mas a separação entre saber e verdade nunca foi superada, e é justamente por isso que a ciência segue avançando. Se o sonho de Leibniz de criar uma linguagem perfeita, sem ambiguidades, onde a palavra correspondesse exatamente à coisa no mundo tivesse dado certo, não haveria avanço e não haveria psicanálise — já que ambas residem justamente onde o saber cessa e a verdade se revela. A verdade para Lacan não está na equação perfeita; está no tropeço do sujeito.

O corte cartesiano jogou o ego e o saber de um lado do mundo, enquanto reservou o sujeito e a verdade ao outro. Cabe à ciência avançar o saber sem nunca conseguir fechá-lo em uma totalidade, pois o tampão que concluiria esse saber não está nas mãos do ego divino, pretenso rei do mundo. Ele reside na verdade que habita ao lado do sujeito — este resto eternamente inapreensível pela racionalidade. É assim que a fundação epistemológica cartesiana estabelece o princípio ordenador da ciência moderna: ao decretar a separação definitiva entre o saber e a verdade, ela fundou também o espaço insubstituível para a escuta psicanalítica.


 
 
 

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