A Invenção do Neurótico: Do Corpo Biológico à Existência Simbólica
- Patrícia Mezzomo
- 5 de ago.
- 3 min de leitura
A clínica nos ensina que nascer não é o suficiente. O ato biológico do parto está longe de garantir um sujeito, e o corpo gerado pela mãe não assegura a vida. Pelo menos não a existência simbólica tal como concebida pela psicanálise.
A existência simbólica está, paradoxal e intrinsecamente, atrelada à morte. Como diria Lacan, "o significante mata a coisa". O animal instintual morre para que o sujeito possa ser criado a partir do nada, ex nihilo, passando a existir no mundo da linguagem.
É a linguagem que mata e faz nascer, através de uma dupla operação que catapulta o bebê ao universo dos significantes. Trata-se de uma ação criacionista que muito nos faz lembrar o mito de origem no qual o mundo se inicia pelo verbo. E a semelhança não é coincidência: quem cria esse sujeito não é Deus, mas o significante do Nome-do-Pai.
O Nome-do-Pai faz o corte que instaura a Lei, a ordem simbólica e o desejo. Esse ato de criação, que mortifica a coisa e inaugura a ordem do mundo neurótico, é operado pelo discurso materno. É a mãe, encarnando o Grande Outro, quem profere a falta.
A dificuldade do senso comum em apreender a proposta lacaniana talvez resida exatamente na recusa em conceber uma existência ancorada na linguagem, e não na carne. Contudo, quando a lógica nos permite abrir os antolhos da biologia, encontramos a verdadeira narrativa de fundação do neurótico.
Mas, se o Nome-do-Pai é o operador que instaura a morte simbólica, o Falo é o seu parceiro indissociável, que tem como função, instaurar e metonimizar o desejo, impulsionando a vida. Ele é o véu que recobre a hiância deixada pela operação do Nome-do-Pai. Enquanto o corte instaura e demarca a falta (legalizando-a), o Falo surge como o norte, a bússola que sinaliza que essa rachadura pode ser recoberta. Como promessa de sutura, é ele quem orienta o desejo humano rumo àquilo que falta.
É assim que testemunhamos a entrada do infans na linguagem. O enodamento do Nome-do-Pai com o Falo se apresenta na vida da criança estruturalmente como um mistério. E será justamente esse mistério angustiante que movimentará toda a mitologia (o fantasma) que o futuro neurótico precisará inventar para dar conta do seu lugar no mundo.
Marcado pelo corte e pelo tampão fálico orientador do desejo, a falta no sujeito está instaurada. Definitivamente ele já não pode ser o objeto que completaria a mãe e o falo, significante do mistério por excelência se apresenta, não para suturar a falta, mas sim para interrogar o falante a respeito do desejo - que é sempre do Outro: Che vuoi?" (Que queres?).
A pergunta que ricocheteia no desejo materno retorna ao sujeito interrogando-o sobre a sua própria existência e o seu sexo: "O que sou eu aí? Homem ou mulher? Vivo ou morto?". Eidelsztein nos aponta que o mistério se dá justamente pela falta de significantes que possam representar a morte e o sexo e justamente por isso, não temos aqui um enigma a ser decifrado, mas um mistério estrutural e estruturante.
E assim nasce o neurótico: com uma pergunta a respeito do desejo, que o aterroriza e o angustia. Diante da angústia, a saída é fantasmática. O neurótico inventa um roteiro próprio: o fantasma ($⋄a), que nada mais é, que sua gramática particular para responder e suportar o mistério. Uma narrativa que dá sentido à sua existência, que orienta seu desejo, e que ele acredita ter partido do Outro.
Poderíamos pensar então, a partir desta grande jornada da criação, que a invenção do neurótico se dá por uma dupla invenção a partir do nada?
Uma primeira criação operada pela instauração da ordem simbólica marcada pelo nome-do-pai e uma segunda criação, agora fantasmática, que cria sua própria interpretação do desejo materno que em verdade está e sempre esteve para sempre perdido?

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