Quem analisa hoje?
- Patrícia Mezzomo
- há 4 dias
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A descoberta radical de Freud a respeito do inconsciente foi apagada pelos seus “continuadores”. Essa é a denúncia oculta por trás da pergunta que serve de abertura para o texto de 1958, A direção do tratamento e os princípios de seu poder. Mais uma vez, Lacan desfere sua crítica mordaz contra o crime cometido pelos pós-freudianos: o assassinato da psicanálise, que agora exige ser reinventada.
Os "ultramarinos" atravessaram o oceano e entregaram ao continente americano justamente aquilo que Freud tentou destronar: a autonomia do ego. Nos EUA, o ego tornou-se senhor de sua própria casa, domesticado e adaptado ao american way of life de sua época. E por trás de toda essa jornada, o que se revela é uma profunda ignorância a respeito dos marcadores fundamentais da teoria analítica.
Essa transformação da psicanálise em uma psicologia do ego diz muito mais do que à primeira vista podemos perceber. Não se trata apenas de uma acomodação continental ou cultural; estamos falando, na verdade, da chaga que assola o pensamento ocidental: a ilusão do verbo Ser.
A direção do tratamento orienta o vetor de forma muito clara: o analista dirige o tratamento, mas nunca o analisando. Essa máxima, aparentemente simples, desvela a verdade que Lacan condensa em uma simples pergunta: “O que o ser veio fazer aqui?” Sempre brilhante em seu estilo, a interrogação atordoa o homem aristotélico, pois expõe uma prática ontológica exercida pelos herdeiros de Viena, que nada tem a ver com a subversão que Freud revelou ao mundo. Os espólios freudianos foram reduzidos a uma teoria do ser, da essência e da substância. A direção tomada por eles não foi apenas a das Américas, mas a da contramão da linguagem — que é o verdadeiro alicerce do ato clínico.
Se Lacan adverte que o analista deve pagar com suas palavras, com sua pessoa e com seu juízo mais íntimo, sustentando seu lugar à custa de um esvaziamento de si mesmo, o herdeiro de Freud recusa-se a pagar o preço de tal desontologização. Ele dobra a aposta essencialista, invoca o Ser para a clínica e torna-se cego em seu próprio ato. Instaura-se, assim, uma clínica do imaginário. Nela, o analista confessa sua ignorância a respeito do lugar do “morto” aludido no jogo de bridge, seu desconhecimento sobre a falta-a-ser e sobre sua função de suporte simbólico na transferência. O que resta é uma clínica assentada na rivalidade especular, onde o exercício do poder reina disfarçado de pedagogia da consciência. Afogamos a dimensão do inconsciente e fizemos o ego americano feliz.
A solução para essa crise intelectual que avassala a clínica encontra-se nos três registros e não apenas no Imaginário. É na transferência que o analista é capturado pelo fantasma do paciente, e é precisamente aí que reside o segredo da análise. É a partir desse lugar vazio que ele deve responder; para tanto, o "ser" individual deve ficar de fora, pois ele não deveria estar aqui. Quando o analista "ressuscita o morto" — introduzindo suas próprias opiniões, mágoas, bondade ou raiva —, o jogo degenera em uma disputa imaginária de Eu contra Eu. A análise se perde e o processo fica sem direção, pois o inconsciente é calado pelo ego do analista, convertendo a clínica em uma política de dominação e adestramento.
A dimensão da falta foi suplantada por uma psicologia de adaptação, que isolou um suposto "ego autônomo" para imaginarizar uma saúde mental. A ambição delirante de um analista que una forças com a "parte sadia" do paciente contra a sua "parte doente" é conveniente e patética. No desejo de confirmar sua própria existência, o analista esquece-se de seu lugar de suporte simbólico. Sua interpretação perde o valor clínico no momento em que ele responde com seu "Ser", com seu Eu, e a verdade da psicanálise, que só advém quando o ser é abandonado, se perde em meio à uma ideia ingênua de saúde mental, proposta pela autonomia ilusória de um ego sadio.
Lacan nos faz uma pergunta crucial e a ela incluímos então uma continuação lógica. Se o “quem” da pergunta “Quem analisa hoje” alude a uma insistência sobre a ontologia daquele que conduz o tratamento, poderíamos então nos perguntar se esse mesmo analista, o analista ocidental, teria a audácia e a capacidade de sustentar o não-ser, operando a passagem necessária do "quem" (do Eu substancial) para a pura função do lugar do analista?

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