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A metafísica da estrutura 

  • Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
    Patrícia Mezzomo
  • há 16 horas
  • 3 min de leitura

A década de 1950 é marcada por profundas transformações, esgotamentos e desilusões políticas. A intelligentsia francesa, órfã das ilusões do marxismo soviético pós-stalinista, encontra na linguística estrutural a saída intelectual para o modelo biográfico e linear da Velha Sorbonne, destronando a figura do herói engajado que marcou o início do século. 


Sartre, a figura tutelar do pós-guerra, começa a ficar isolado a partir desse período. Seu existencialismo — que ditava a moda intelectual francesa assentado na liberdade radical do homem, na consciência soberana e no engajamento político do sujeito — passa a sofrer os efeitos de novas interrogações originadas pelas ciências humanas, que tomavam a linguística estrutural de Saussure como ciência piloto. 


O estruturalismo nascente promovia uma abordagem que destronaria a filosofia da subjetividade sartreana. No novo modelo, a consciência e o sujeito livre desvanecem; o homem passa a ser apreendido como um elemento passivo, inteiramente determinado pela regra, pelo código e pela estrutura. O argumento estruturalista traz à tona a ilusão do Eu. A pretensa liberdade que Sartre propunha ao homem não passa de uma ilusão ingênua do ego, visto que o homem já nasce capturado e determinado pelas estruturas invisíveis da linguagem e da cultura. A estrutura veio ocupar o lugar do "Sujeito Soberano" e da "Liberdade Absoluta", cobrando como preço o apagamento do sujeito. O ser humano deixou de ser o autor livre de suas escolhas para se tornar um mero efeito ou engrenagem das grades da linguagem, dos mitos e do inconsciente. 


Nascia, a partir dali, uma nova alternativa à metafísica ocidental, que ambicionava dar conta do vazio deixado pelas crises religiosas e políticas do pós-guerra. Sartre recusa esse movimento. Despreza a linguística como uma "ciência menor" e fecha-se para a noção de inconsciente, insistindo que a biografia humana pode ser integralmente decifrada na práxis. Sua recusa em operar com o inconsciente e com a opacidade da linguagem fez sua obra tardia parecer um ensaísmo literário datado, abrindo espaço para o rigor estrutural. 


Abria-se o campo para a idade de ouro do Estruturalismo, que mudaria para sempre a noção de sujeito. Ao longo de duas décadas, os mestres reinaram soberanos no ambiente acadêmico e midiático, como detentores do saber que há tanto acossa o humano: o saber sobre o sujeito. O estruturalismo passou a ser a língua comum de diversos saberes e, por um tempo, ele pareceu alcançar a autoridade absoluta que havia deixado seu lugar vazio desde as crises da modernidade. 


Mas seus mestres, diferentemente de Deus, eram mortais. E foi concomitante ao falecimento deles — e em meio a discursos que tentavam romanticamente relacionar suas tragédias particulares a um suposto impasse da teoria enquanto resposta ao sujeito — que se testemunhou o declínio midiático da corrente estrutural dos anos 60 e 70. 


O estruturalismo foi perdendo espaço na cena pública e em meio à crise provocada pelo apagamento do sujeito. Aparentemente, o ego sempre parece encontrar uma maneira de insurgir contra a hiância do sujeito! O pós-estruturalismo nasce, então, como uma “nova” velha resposta à subjetividade humana, abrindo caminho para o homem enquanto experiência positiva e existente. O pensamento pragmático anglo-saxônico ganha espaço nos domínios franceses e o eu ressurge, bifurcando os saberes de uma época. Testemunhamos o nascimento de uma era narcisista, de individualismo exacerbado que promove o retorno dos “velhos cavalos” do passadismo conservador e da abstração burguesa. 


Mas a morte dos mestres apenas apagou sua popularidade midiática. O estruturalismo perdeu lugar nos holofotes para ganhar rigor acadêmico e se assentar como um solo incontornável das ciências humanas. Não mais soberano, mas estruturante, seu legado promoveu um novo olhar: o sujeito não mais apagado, mas formalizado. 


Lacan, contrariando a fofoca midiática que afirmava ser ele um dos abatidos pela tragédia da falha da estrutura, ainda em vida encaminha a psicanálise para além do estruturalismo clássico. Não como uma substituição pelo ego ultramoderno, mas sim em direção às ontologias não ocidentais, que não apagam mas também não afirmam o sujeito. É na ontologia do vazio e da hiância e na topologia que ele extrairá as coordenadas para formalizar seu objeto a, dobrando a aposta no sujeito enquanto falta e mantendo sua honestidade intelectual intacta.


A despeito de sua morte, faz a psicanálise prosperar em núcleos duros da resistência, provando-nos que o lugar da verdade não se reserva aos holofotes, mas sim ao incômodo e ao árduo trabalho daquele que tem em si o desejo de saber.


 
 
 

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