Estruturalismo - do apogeu à queda
- Patrícia Mezzomo
- há 3 dias
- 3 min de leitura
Aventurar-se no prefácio de François Dosse a respeito da história do Estruturalismo nos dá a nítida percepção de estarmos revivendo a história da psicanálise, de Freud a Lacan. Com uma vida mais curta, porém, o estruturalismo perece justamente por ter falhado em duas grandes dimensões que a psicanálise sustenta: o Grande Outro barrado e o Sujeito.
A história das ciências nos revela um fato comum: a incrível tendência humana de buscar nas ciências (ou nas religiões) uma solução absoluta para as questões do mundo. Dosse nos apresenta em seu prefácio o que parece ser uma repetição dessa mesma ambição: o Estruturalismo enquanto uma nova “teoria de tudo”. Foi assim com Descartes, com Hegel e com Frege. Aparentemente, o movimento estruturalista seguiu a mesma lógica, nutrindo a ambição de constituir um único e vasto programa de análise aplicável a todos os campos do saber.
Criado a partir da descoberta da estrutura da linguagem por Ferdinand de Saussure, o Estruturalismo pôde ser exportado para outras disciplinas. Tornou-se o molde dos estudos das ciências sociais que ambicionavam legitimação erudita e institucional; viria a ser conhecido nos Estados Unidos sob o selo de French Theory. As ciências humanas viam nele a possibilidade de emancipação — um rompimento do cordão umbilical que as atrelava à filosofia —, conferindo-lhes a validade de um método científico. O estruturalismo tornava-se, portanto, um movimento de pensamento, uma nova forma de relação com o mundo, muito mais amplo do que um simples método específico de pesquisa.
Durante um período, foi possível acreditar no sucesso absoluto desse novo pensamento francês que parecia ganhar o mundo. Sua idade de ouro ocorre nas décadas de 50 e 60, constituindo-se na filosofia comum às ciências que postulam o inconsciente como lugar da verdade: a linguística, a antropologia e a psicanálise. A ideia foi tão bem aceita que se espalhou por todos os lados, consagrando grandes mestres como Roland Barthes, Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault, Louis Althusser e Jacques Lacan, todos engajados nessa promessa intelectual do final do século.
Mas, como toda ambição de totalidade, vemos a falha fazer sua marca e derrubar os anseios científicos de seus mestres. O Maio de 68 marca o início da queda. O Estruturalismo, que surgiu também como uma crítica à modernidade ocidental, sofre então seu mais duro golpe ao ser acusado de ter promovido o apagamento do sujeito.
É aqui que, mais uma vez, nos deparamos com a genialidade de Lacan que, ao se servir de uma teoria sem aderir cegamente a ela, garante um local à parte para a psicanálise. Lacan parecia estar sempre advertido do engano dessa ânsia totalizante que arrebata os corações humanos. Fez disso a sua marca, barrando o Grande Outro e instaurando a dimensão da falta ao criar o seu objeto a — aquilo que cai do sujeito. Justamente por estar ciente da falta e da barra, ele se serve do estruturalismo sem coadunar com o soterramento daquilo que vem a ser o objeto da psicanálise: o sujeito.
A partir daí, os caminhos se bifurcam, em uma divisão que espelha as próprias dissidências das escolas psicanalíticas pós-freudianas. O pós-estruturalismo e os pós-freudianos fizeram sua aposta no retrocesso, operando um retorno à substância, ao historicismo e à reinvenção do eu da consciência. Uma geração inteira, exausta do determinismo estruturalista, passou a reivindicar o resgate da agência humana, recusando um sujeito que fosse mero efeito passivo da estrutura. Esse nascimento do pós-estruturalismo evoca, fortemente, a entrada do pensamento pragmático inglês e americano na teoria freudiana.
Ao contrário desse movimento de recuo, Lacan opta pelo caminho aberto por Freud e pela linguística estrutural. Sua intenção não era tamponar ou apagar o sujeito, mas avançar para formalizá-lo com o apoio da lógica e da matemática.
O sujeito pós-estruturalista, portanto, destrona o sujeito da linguagem e tenta retomar a “casa” que havia perdido com a descoberta do inconsciente; ele agora quer operar no mundo de maneira autônoma, com ação deliberada e controle adaptativo. Enquanto isso, o sujeito da psicanálise ganha status científico-matemático, aproximando-se das teorias dos conjuntos e do vazio. Ele segue sempre como um efeito da falta no Grande Outro e subvertido do senso comum — esse mesmo senso comum que se tornou tão caro à nova intelectualidade do fim do século.

Comentários