Do Significado ao Ato: A Batalha de 1958
- Patrícia Mezzomo
- 13 de ago.
- 3 min de leitura
A década de 50 marca o conflito lacaniano por excelência. O psicanalista francês, amarrado pelo contexto histórico e pelo desejo de pertencimento, precisa acochambrar sua teoria no glossário freudiano para agarrar-se a cordas que o impedem de se esparramar no precipício da excomunhão.
São anos de luta não tão velada, mas com semblante de parceria, para tentar mudar os rumos que a teoria freudiana havia tomado. Conceito por conceito, Lacan vai disparando sua denúncia e construindo sua história, seu ensino e sua expulsão.
Ler sua obra a partir do futuro nos possibilita ver isso de maneira mais clara, e o tema da interpretação exemplifica essa batalha de forma cristalina.
São mais de dez páginas argumentando e exemplificando a diferença entre a intervenção dos pós-freudianos e a descoberta pelo gênio de Freud, mas o incômodo que permanece ao leitor é o acochambramento a que se obriga o francês ao ter que se assujeitar à palavra que dá razão aos herdeiros ingleses.
Um pulo no dicionário já nos mostra a batalha perdida de Lacan: interpretar é o ato de explicar, dar sentido ou extrair o significado de algo, indo além do que está escrito de forma direta ao usar o conhecimento de mundo. Não à toa, a interpretação foi reduzida a um lugar ínfimo, pois ínfima é a própria função desse termo. A palavra já trazia o sentido e a função do analista, e a clínica desviada, não sem razão, passou a crer que interpretar é dar um conselho esclarecedor ou explicar o sintoma.
Foram precisos alguns anos e uma expulsão para que Lacan abandonasse de vez o esforço de fazer caber um conceito dentro de outro e passasse a chamar a intervenção psicanalítica de ato. Ato: essa sim é uma palavra que faz jus à clínica. Ato, atuar, agir, ação. O analista age sobre o significante. Uma simples troca vocabular escancara o abismo entre o que essas duas psicanálises operam. Enquanto uma clínica explica e fecha o significado, fazendo o leitor crer que a consciência racional teria alguma utilidade na dialetização do sintoma do falante, a outra atua, agindo e abrindo o espaço, trazendo para o setting a estupefação que a não racionalidade é capaz de causar ao sofredor.
É no significante que se pode resgatar a eficácia da prática. O ato sobre o significante revela a incompletude do código, fazendo emergir o furo no sentido e, consequentemente, a verdade do desejo.
Um sujeito racional, entupido de explicações mentais sobre seu próprio sofrimento, jamais consegue desejar e pode, no máximo, padecer de uma anorexia mental. Lacan demonstra isso metodicamente ao examinar o erro de Ernst Kris: o paciente deseja comer miolos frescos porque só assim torna-se possível uma fuga da racionalidade moral que o estrago da interpretação pós-freudiana é capaz de causar.
Mais do que revelar o esforço que Lacan fazia para implodir a psicanálise inglesa por dentro, essa discussão traz a reboque denúncias ainda mais graves. A palavra interpretação também serve ao ego inflado do analista refém de suas próprias paixões narcísicas. O receio de demonstrar ignorância, a fome de ser amado pelo paciente e a necessidade de dominar, fazem o analista usar a transferência como escudo de autoridade para impor sua visão particular de realidade.
Aqui emerge a questão central: o problema reside na palavra interpretação ou no uso de poder que se fez dela?
Ao perceber que seu saber exercia um poder de sugestão, Freud criou o dispositivo do divã, recusando o face a face para sair da imagem dual e posicionar-se como suporte do significante e do lugar do Pai Morto.
Se a neurose denuncia o tempo todo o equilíbrio do binômio falo-castração, chama a atenção o excedente fálico que revela a falta que a falta já fazia naqueles anos.
Seus herdeiros recusaram esse lugar de resto e preferiram ocupar a cadeira da sugestão, sustentando um significado imaginário por puro gozo de poder. A resposta que o texto nos cobra, portanto, deixa de ser técnica para se tornar ética: faltava-lhes teoria ou faltava-lhes castração?

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