O apagamento do sujeito na relação dual
As pirotecnias clínicas do pós-freudianismo deixariam o circense constrangido em sua limitação criativa. Emparelhamento do desenvolvimento psíquico às fases maturacionais biológicas e sensório-motoras, detecção de padrões de conduta, teste moral e constitucional de "capacidade de amar" do paciente, fábulas de maturidade genital, pulsões ternas adaptadas às conveniências do parceiro, estabilidade inabalável do Ego sem a divisão do sujeito.
Neste hall de criações que beiram as raias da loucura, o auge da insanidade talvez tenha sido propor a cura como a absorção ou introjeção da imagem do analista pelo paciente! É diante de tal malabarismo imaginário que vemos nascer as conduções e manejos clínicos que constrangem até o mais despudorado coach do século XXI.
A fantasia de devoração fálica da figura do analista, enclausurando analista e analisando em uma relação dual imaginária, expulsa o simbólico da clínica e deixa como saída a única forma encontrada pelos pós-freudianos ao tentar regular a intensidade da neurose: metaforizar a distância entre sujeito e objeto. O analista passa então a objetivar uma redução desta distância visando uma fusão imaginária e a destruição do objeto! Isso mesmo. Uma fusão. Dois se tornam um, e o padre, do seu altar, inveja o analista!
No lugar da assunção do sujeito, o objetivo agora é que o analisando consiga "sentir o odor do analista"! A escuta guiada pelo "faro" foi tratada como sinal de desfecho bem-sucedido! Se Freud se valeu da cocaína em seus experimentos teóricos, tenho pra mim que esses analistas deviam estar sob efeito de algum alucinógeno para chegarem a tais conclusões! Não me parece coincidência a descoberta dos efeitos do LSD datar da mesma época. Em 19 de abril de 1943, o químico suíço Albert Hofmann ingeriu voluntariamente 250 microgramas da substância e voltou para casa de bicicleta, protagonizando a primeira viagem psicodélica documentada da história. Quem dera nossos analistas andassem mais de bicicleta!
Aqui cito Lacan em compadecimento ao espanto que a realidade nos causa: “Não há limite para os desgastes da técnica por sua desconceituação. Já fizemos referência aos achados de uma certa análise selvagem a respeito dos quais foi doloroso nosso espanto que nenhuma supervisão se alarmasse. Poder sentir o odor do analista apareceu num trabalho como uma realização a ser tomada ao pé da letra, para assinalar a saída exitosa da transferência”.
Indignações à parte, Lacan nos pergunta o que realmente importa, para além deste odor: “A questão que podemos levantar é a do limite entre a análise e a reeducação...? (...) a contribuição do deciframento do inconsciente é realmente mínima. A ponto de nos perguntarmos se sua maior parte não permanece intacta no enquistamento do enigma...”
Os analistas perderam-se em devaneios, alucinaram odores, idealizaram o amor e esqueceram do enigma. Tentaram domesticar o desejo sob o argumento patológico e equivocaram-se quanto ao seu lugar de estrutura. Apagam Freud, eliminam a distância entre sujeito e objeto na ingênua noção de cura pela via "digestiva". O analisando finca os dentes no analista e perde seu espaço.
Ora, sem distância, sem falta, sem intervalo, o desejo é aniquilado. Os analistas que tratavam a fusão com o analista como cura acabaram, na verdade, eliminando as condições do próprio sujeito.

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