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Do ser à falta-a-ser

Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
Patrícia Mezzomo
14 de out.
2 min de leitura

Desde o início do texto A direção do tratamento, Lacan dedica-se à denúncia que tanto lhe é cara na década de 1950: os desvios da descoberta e da técnica freudiana.

De identificações e introjeções enlouquecidas até a capacidade olfativa alçada a meta de fim de análise, o ponto segue sendo um só: o analista que opera no exercício do seu poder moral e egóico, colocando seu Ser como modelo de conduta e felicidade, tampona o verdadeiro lugar da clínica: a falta-a-ser colocada a serviço da cadeia significante. Lacan contrapõe a ética do inconsciente às tentativas pós-freudianas de transformar o analista num modelo de conduta ou num agente reeducador.

A promessa de bem-estar social não resolve o drama da divisão do sujeito. O ideal do "analista feliz" não tem nem cheiro de psicanálise, mas conforma-se perfeitamente ao teor pedagógico que vinha se tornando a direção do tratamento naquela época. A direção analítica de um tratamento apoia-se no enigma do inconsciente; assentada na escuta da sintaxe e da articulação significante do discurso, que conduz à verdade e borra a compreensão imaginária.

O aspecto mais subversivo de Lacan reside justamente na denúncia de que a compreensão, tão cara ao pós-freudianismo, engendra o engano imaginário, fechando o enigma e soterrando a verdade. Pois, como aponta Lacan, a verdade, uma vez dita, não pode mais voltar a ser dúvida. Esse é o horror daquele que fala e, ao que parece, daqueles que o escutam pela via do semelhante.

É diante desse impasse que Lacan formula o mais genial capítulo: o silêncio do analista como estratégia de desvelamento significante. Ao recusar responder do lugar de quem compreende ou tudo sabe, o analista frustra o analisando, não por sadismo, mas como método. Faz isso para impedir o preenchimento imaginário do vazio e fazer emergir o deslize da demanda, que reativa as marcas infantis e expõe a cadeia significante.

No silêncio do analista enquanto estratégia de desvelamento da falta, deparamo-nos com a exata postura rechaçada pelos analistas do imaginário. É aqui que a questão do ser bifurca e divide a clínica orientando direções contrárias. Se o pós-freudiano encontrou seu ato na conduta pedagógica, mediada pelo seu ser como modelo ilusório de existência, testemunhamos na clínica lacaniana esse mesmo ser comparecendo como a moeda paga em nome da verdade.

O analista paga com sua pessoa, tornando-se suporte da transferência; paga com suas palavras, transmutadas pelo significante; e paga com seu ser — ou antes, com sua falta-a-ser —, não tendo nada a ofertar além dessa falta, a qual recusa entregar até sob a forma de resposta. Despojado de certezas e sustentando o vazio, o analista opera pelo seu desejo, única alavanca capaz de levar o sujeito a confrontar-se com a verdade do seu próprio desejo.


 
 
 

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