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Do "Cogito" ao Delírio

  • Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
    Patrícia Mezzomo
  • 4 de mar.
  • 2 min de leitura

De Descartes a Hegel, podemos traçar uma trajetória do surgimento do homem moderno, até o seu enlouquecimento?

E afinal, porque o homem enlouqueceu? Teria ele se apaixonado pelo próprio ego?

Se fizermos nosso recorte histórico do momento atual, não nos faltarão exemplos dessa lógica que culminou no homem ultramoderno “senhor em sua própria casa”, a despeito do que Freud tentou nos alertar. 

Estudar a loucura em psicanálise é estudar o moderno de Hegel, o mais que moderno, o eu cartesiano levado às últimas consequências de seu cogito. 

Esse homem, não só pensa e por isso, existe, como acredita ser o único que pensa da maneira correta! O ego passa a senhor de sua própria casa e também do mundo. Pelo menos é assim que ele almeja.

Lacan precisou da fenomenologia do espírito para poder elaborar sua teoria da loucura e nós, psicanalistas, somos testemunhas desta teoria, quase que diariamente, visitando nossos consultórios.

A Bela Alma nos procura em grande sofrimento: “o mundo não é como deveria ser”. E pelo fato do mundo estar ”errado”, a Bela Alma sofre profundamente por não conseguir colocar sua lógica para operar neste mesmo mundo. E a culpa é do mundo, das pessoas que não conseguem seguir de acordo com a sua lei do coração. O sofredor segue então cristalizado em um ideal narcísico de coerência e bondade, descolado da realidade e aderido ao seu delírio de infatuação.  Diana Rabinovich e Pablo Munoz nos explicam que infatuar tem a mesma origem latina da palavra folie, que significa loucura. Infatuar tem a ver com inchaço. O louco está inchado. Inchado em seu ego. Justamente por isso, seu desejo individual passa a ter força de lei e na impossibilidade de aplicação desta lei, vemos surgir o delírio que o descola e o isola desta realidade que ele tanto rechaça por se considerar diferente e desencaixado.

O eu cartesiano, que nasceu isolado, que nasceu pela dádiva do pensar, agora inflacionado pelo imaginário, chilica contra o mundo e ignora sua verdadeira origem: o dito do Grande Outro.

Inflado, dono de si, detentor da verdade última, a loucura se instala. 

A solução? O sujeito. A falha, o intervalo. 

O indivíduo moderno enlouquece porque leva o projeto de Descartes ao extremo: ele tenta ser a própria garantia da sua existência. 

E a saída que a psicanálise propõe, é a experiência com a falta de garantia, a experiência com a falha da estrutura, a falha da linguagem.

Desenlouquecer é dialetizar. Colocar em jogo de palavras as verdades congeladas que adoecem o falante com seu sentido rígido, quase religioso. Desenlouquecer é pôr-se a falar em associação livre, até falhar. Falhar, porque quem fala falha e é na falha que a coerência estremece e o louco pode então se resgatar de seu transe egoico e solitário rumo a refenda do sujeito que o catapulta ao desejo, que é sempre do Outro, Outro que ele tanto tenta negar.


 
 
 

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