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A Língua Indo-Europeia

Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
Patrícia Mezzomo
há 11 minutos
3 min de leitura

É a partir do ponto de discordância entre Georges Dumézil e Claude Lévi-Strauss que podemos afinar ainda mais a relação entre psicanálise e linguagem, tema tão caro ao nosso campo. Lévi-Strauss encontra em Dumézil o iniciador do método estrutural e, juntamente com sua leitura de Mauss, pode então tornar-se o pai do estruturalismo. Sua ambição buscava a origem das estruturas nas "leis do espírito humano em sua universalidade", ou seja, a postulação de uma matriz no inconsciente universal.   


Dumézil vai se opor a Lévi-Strauss justamente no tema da universalização. Para ele, nosso código de valores herdados se origina em um grupo específico: o indo-europeu. Isso nos impede de transformar nossa estrutura em uma lei de funcionamento para toda a humanidade. Estamos aqui diante de um ponto de inflexão que muito interessa à psicanálise: o fato de a língua indo-europeia ser aquela que determina a estrutura do sujeito com a qual a psicanálise opera. Ou seja, nos aproximamos do ponto de vista de Dumézil quanto à recusa de uma universalidade estrutural, em nome de regras muito específicas que regem nossa cadeia significante, covariante e interdependente.   


Para a psicanálise, o que separa os humanos da natureza não é simplesmente viver em sociedade, mas sim a cultura. A cultura só existe porque o humano é atravessado pela estrutura da linguagem e pela operação do significante. A linguagem não é apenas uma ferramenta de comunicação; ela é o sistema que funda a lei, institui a perda e gera o mal-estar que nos constitui.   


No texto "As estruturas clínicas a partir de Lacan", Alfredo Eidelsztein aponta que a base da nossa cultura é o indo-europeu, a língua perdida que deu origem ao latim, às línguas românicas, ao germânico, entre outras. O dado fundamental dessa informação é que o indo-europeu manteve, ao longo dos milênios, um vocabulário de parentesco que estrutura a família a partir de um pai mítico e transmite a linhagem por filiação paterna. Ou seja: o Nome-do-Pai e a estrutura edípica não são verdades universais da biologia humana, mas uma herança simbólica que viajou dentro da língua indo-europeia. Fora deste território cultural (como nas tribos australianas ou amazônicas mencionadas pelo autor), os indivíduos não são "sujeitos da ciência" e não partilham dessa matriz. Consequentemente, as noções psicanalíticas clássicas não lhes podem ser aplicadas tal como as conhecemos. Aceitar a leitura de Dumézil através de Eidelsztein significa reconhecer que o complexo de Édipo, a função paterna e o próprio Grande Outro que nos determina são produtos de uma matriz simbólica muito particular que o nosso ramo linguístico vem transmitindo e transformando.   


A modernidade marca o momento em que a ciência assume o controle dessa cultura, passando a exigir que todo saber seja racional, exato e igual para todos, fundando assim o sujeito da ciência. Nossa cultura ocidental resulta, portanto, do encontro de matrizes simbólicas muito específicas: a base linguística e familiar do indo-europeu, a tradição religiosa judaico-cristã e a ciência moderna. Não é possível entender o homem ocidental e o nosso analisando sem considerá-lo como o produto cruzado da família patriarcal antiga com a moral cristã e a modernidade.   


Aqui Dumézil e Lévi-Strauss voltam a caminhar lado a lado ao servirem de base para a nossa linguisteria, onde, resguardada a matriz histórica herdada, a colocamos no funcionamento da estrutura. É a estrutura que nos interessa tanto quanto interessou a Lévi-Strauss. O sentido, a história contada, o drama ou a lenda do falante em análise são apenas o revestimento semântico de superfície. Se o analista se prende ao significado, fica capturado pela queixa consciente ou pelo exotismo folclórico de um mito local.   


Mas, se ele volta sua escuta para a estrutura de matriz indo-europeia, os elementos não valem pelo que dizem ser, mas pela posição relativa que ocupam na rede histórica do sujeito. Se um significante se desloca ou se altera em uma ponta do sistema, todos os outros termos da cadeia se reconfiguram simultaneamente, mantendo a regra de oposição e proporcionalidade. O analista deve escutar a combinatória das regras de associação inconscientes, advertido dos significantes-mestres presentes no discurso ocidental que operam função de lei e corte e jamais se ater ao romance que o ego constrói para justificar o sintoma. A língua é a malha material onde essa estrutura inconsciente se torna analisável. É o território demarcado do analista e transformado em gramática, que circunscreve a operatória do ato analítico a um campo rigorosamente delimitado e mapeado.   


 
 
 

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