A criação das verdades eternas - Da escada ao muro.
- Patrícia Mezzomo
- 18 de fev.
- 3 min de leitura
Se a ciência ameaça a onipotência divina, Descartes entra para história como aquele que salva Deus e a ciência. Não se trata de pouca coisa e o tempo nos prova isso, marcando a importância deste homem para a humanidade.
A transição do medieval para o mundo moderno é marcada por perdas e rupturas, e Descartes é o homem que tenta resolver o conflito entre a fé e o novo saber que surgia.
O Deus de Tomás de Aquino reinava sob o mundo, numa espécie de analogia que o conectava ao homem de forma nebulosa. Ao mesmo tempo em que se apresentava como um mistério insondável, Ele também estava presente em tudo, a ponto de, em um simples procedimento cirúrgico, emergirem questões teológicas sagradas. A ciência era tímida porque o mundo era "encantado" e cheio de mistério divino.
É nesse contexto que a matemática surge como uma ameaça à alteridade e o mundo começa a se abalar diante da chacoalhada científica que estava prestes a surgir, abrindo as portas do mundo moderno. Galileu e a nova física propõem uma univocidade: a matemática dos homens é igual à de Deus. Isso "humaniza" e abala o Deus do medievo. O homem se empodera: ele não precisa mais rezar para entender a chuva, ele a calcula. O preço disso seria transformar Deus num mero "Grande Geômetra", submisso às leis matemáticas.
Mas esse Deus castrado pela matemática não é aceito por Descartes, que faz sua manobra radical de colocar a vontade de Deus acima da lógica. As "velhas soluções" não serviam mais para explicar a nova física. E as "novas soluções" ainda não tinham nascido completamente.
Descartes então dá luz à sua tese da "Criação das Verdades Eternas" operando um corte: De um lado o Criador e do outro a criação. Deus, em seu reino de equivocidade, criou as verdades, inclusive as matemáticas, que são imutáveis e fixas. Aqui embaixo, reina a univocidade e podemos fazer ciência tranquilamente, pois Deus não vai mudar as regras do jogo.
Mas ele não era um beato medroso que se obrigava a falar de Deus por receio da inquisição. Pelo menos, não parece ser essa a opinião de Gaufey: “o distanciamento sem limite do Deus é uma necessidade rigorosa no interior do pensamento cartesiano”. Descartes PRECISA desse Deus Infinito e incompreensível. Por quê?
Porque sem essa "Outridade Radical", o sujeito ficaria preso no solipsismo ("só eu existo"). A ideia de Infinito é a única que eu tenho em mim, mas que não posso ter criado, pois sou finito. É a falha em compreendê-la que prova que ela veio de fora.
A onipotência divina só funciona como fundamento da ciência se ela estiver excluída da ciência. Ou, como diz Le Gaufey: "A onipotência só atua como fundamento epistemológico ao se excluir da episteme". Se Deus estivesse "dentro" da ciência, Ele estaria sujeito a erros e dúvidas. Estando fora (excluído), Ele garante a certeza.
A certeza cartesiana, portanto, não vem de "abraçar Deus", mas de "bater nesse muro que dividiu o mundo":
Eu penso; Eu encontro um limite que não compreendo; Esse limite prova que existe algo Real fora de mim; Logo, não estou sonhando: o mundo existe.
Assim, Descartes salva a religião da ciência e salva a ciência da religião, mantendo Deus livre e incompreensível e garantindo um mundo mecânico livre para estudo.
O que antes era uma escada, uma hierarquia permeada pela presença divina, de ponta a ponta, agora é muro, agora é corte. Res-extensa e Res-cogitan. A dualidade cartesiana abrindo espaço para Deus e homem co-habitarem o mundo. Matemática e corpo para cá, pensamento e teologia para lá. Tudo salvo, seguimos o “baile”. Grande Outro de um lado, eu (ego) do outro.
Mas e o sujeito?
O corte cartesiano expulsa o sujeito da equação e funda o sujeito da ciência. Caberá a Freud e Lacan, séculos depois, abrir espaço onde havia apenas o corte. Não à toa Lacan irá nos propor sua nova substância, uma outra res, res-gozosa para dar conta do que nem Deus nem a ciência conseguiram abarcar: o sujeito da linguagem.

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