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Do cogito ao Romantismo: A invenção da loucura moderna

  • Foto do escritor: Patrícia Mezzomo
    Patrícia Mezzomo
  • 1 de abr.
  • 4 min de leitura

Desde o corte epistemológico operado pelo cogito cartesiano, somos testemunhas do “encaixotamento” do falante moderno. Cada vez mais isolado do laço social, chafurdando em sintomas e orgulhoso de sua autossuficiência, o sujeito dos nossos tempos se descola e recusa-se a participar do mundo que o determina.


A crise é coletiva. Mas o homem moderno prefere acreditar que isso que o assola não vem do Outro. O equívoco de se crer a "causa de si mesmo" oblitera a sua capacidade dialética e tudo se congela num ideal de perfeição e isolamento adoecedores.


O falante de nosso tempo não deseja. Não deseja porque não falta. E sem falta, não há sujeito. Há apenas um ego envaidecido e enlouquecido em sua bolha algorítmica da auto existência. 


O engano é avassalador e a saída é o laço. Laço este que o falante recusa, pois já não pode suportar o diferente. Perdemos a capacidade dialética ao “esconder” o sujeito da falta em nome de um ideal egoico e narcísico, sucumbindo, no fim das contas, à escritura de nossas próprias lápides.


Basta um pouco de história e de escuta clínica para que o engano se revele e o falante possa atestar que o seu sofrimento parte de uma outra cena, de um outro lugar, de um Grande Outro que o determina e o causa. Mas o ego é soberano e arrogante. Acredita soberbamente ser o seu próprio mestre e segue impenetrável às falhas e à palavra.


Descartes funda o cogito fazendo nascer o sujeito moderno, que se declara causa do próprio pensamento. Foi dada a largada rumo à estase de um fantoche sem desejos. A trajetória, no entanto, é longa. O moderno nasce do seu pensar e se alicerça com toda força nesse domínio soberano sobre o mundo. A razão cartesiana vira a regra, o universo é reduzido a um grande relógio mecânico, e a Revolução Industrial transforma o homem em uma engrenagem calculável.


Mas a razão não basta para dar conta das dores, dos amores e do mundo subjetivo. Reduzir o mundo à tridimensionalidade avilta a alma humana e o retorno do recalcado não demora a se apresentar. 


Se o mundo moderno surge de um desejo de racionalidade que culmina na consolidação do iluminismo, o Romantismo surge como uma grande rebelião de tudo aquilo que ficou marginalizado: a intuição, a emoção, o sonho e o mistério. A própria transcendência é exigida como uma espécie de reparação ao que fora perdido no mundo cartesiano.

 

Surge o herói romântico. Imbuído da missão de libertar o homem das garras da racionalidade científica, assume o lugar de guerreiro contra o aprisionamento lógico e institui um efeito colateral que só se intensifica ao longo dos séculos: o Romantismo eleva o isolamento cartesiano a máxima potência e se torna a expressão do individualismo moderno. Funda-se a batalha solitária do homem contra o mundo que perdura até os dias de hoje, em suas novas roupagens.


É em Hegel que Lacan obtém a fórmula clínica deste novo herói: o louco. O Romântico enlouqueceu porque cortou os laços com o Grande Outro — ou, pelo menos, é nisso que ele tenta acreditar. Surge a Bela Alma que tenta impor ao mundo a sua Lei do Coração na tentativa de purificar e corrigir a tudo e a todos. Seu lema é claro: “O mundo é um teatro de hipocrisias. A realidade está corrompida. Empunharei a espada da minha verdade interior até que o mundo se dobre ao meu ideal, ainda que eu tenha de lutar sozinho contra todos”.


O ápice do heroísmo culminando em paranóia. O sujeito romântico acredita que o seu interior é puro, belo e divino, enquanto o mundo é corrupto e limitante. O herói romântico sofre tragicamente e se isola porque o mundo é cruel demais para a sua pureza. Alcestes, Fausto, Dom Quixote, e tantos outros heróis alienam-se em rebeliões delirantes, preferindo o exílio trágico a ter que ceder aos limites do mundo. Não à toa, Eidelsztein nos aponta a misantropia como o efeito imediato e inegável dessa jornada moderna. O romântico é o protótipo do louco moderno que acredita que o seu ego é maior que o mundo.


Chegamos ao século XX e as verdades se bifurcam. Enquanto a ciência dura caminha rumo a materialidade do aristotelismo e do biologicismo absoluto, pensadores como Freud, Lacan, Heidegger, Saussure e Lévi-Strauss apoiam-se na linguística, na matemática, na física e na psicanálise trazendo a má nova que fere de morte o narcisismo: o ego não é o senhor de sua própria casa.


O giro linguístico e o estruturalismo anunciam: somos efeitos da linguagem. E a linguagem não é nossa, ela é do Grande Outro. Ninguém é causa de si mesmo e até mesmo a loucura inaugurada com o cogito, é efeito de um discurso histórico que nos atravessa e nos compõe. Somos um simples intervalo entre palavras e frases. Não há indivíduo, nascemos e morremos divididos pelo corte do significante que mata a coisa. 


A ferida narcísica aberta por Freud toma proporções inimagináveis no falante do século XXI. Obviamente isso não foi bem aceito e talvez estejamos testemunhando o que poderia ser chamado de Romantismo 2.0. 


O nosso século propõe novas rebeliões, ainda mais ferozes, contra a falta. Desde uma espiritualidade higienizada que afasta as "pessoas de baixa vibração", chegando ao capitalismo tardio que transforma a própria loucura em produto de consumo, nossas timelines são inundadas por imperativos que anulam o Outro: “seja você mesmo”, “siga seu coração”, “empodere-se”.


O sofrimento contemporâneo é efeito direto desse herói isolado e autônomo, sem laço com o mundo simbólico, tentando dar conta do impossível e afundando em sintomas de ansiedade, burnout e depressão. Sem o Grande Outro para ancorar e marcar a falta, o sujeito desliza sem ponto de basta, padecendo de um excesso mortífero de si mesmo.


A saída?

O laço, o limite, o Outro barrado. Não há saída em si mesmo. 

Se a nossa época promete a falsa liberdade de um verbo reflexivo — a ilusão de que podemos nos curar, nos bastar e nos amar sem depender de ninguém —, a clínica psicanalítica atua na contramão dessa arrogância, objetivando não um herói liberto do mundo, mas um sujeito capaz de suportar o tropeço e o atrito com o diferente. Só assim é possível ao falante escapar da própria lápide e voltar a desejar.


 
 
 

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